DUVIDAS SOBRE COMO CRIAR UM PROJETO LITERÁRIO? SOS LITERÁRIO

Acontecerá neste próximo final de semana (dias 23 e 24.08) um encontro muito bacana entre profissionais da industria do livro e autores que ainda não conseguiram , editores e

duvida

promotores culturais terão a rara oportunidade de se encontrarem com profissionais da industria do livro, que tirarão duvidas sobre publicações, direitos autorais, edição de livros, produção gráfica, e-books e muitos outros assuntos

O plantão literário contará com a presença dos escritores Roberto Taddei e Andréa Catrópa, além do webdesigner Ricardo Botelho, o jornalista Haroldo Ceravolo, o artista gráfico Leonardo Mathias e o advogado João Ibaixe Jr.

O S.O.S Literatura acontece das 14h às 18h, na Casa das Rosas (Av. Paulista nº 37, perto da estação Brigadeiro do metro).

NA MIRA DOS AGENTES LITERÁRIOS

MARISA MOURA é uma das pioneiras e mais destacadas agentes literárias no Brasil. Por suas mãos já passaram grandes autores e obras grandiosas.

Apesar de muito ocupada, generosamente divide sua experiencia a respeito do mercado editorial através de uma coluna quinzenal, publicada pelo PUBLISHNEWS, às terças-feiras.

 

02/08/2011

 

2013 já parece ser amanhã para o mercado editorial. Todos estamos em estado de vigília nas preparações da data em que o Brasil será o país convidado na maior feira do livro internacional. No site da Feira do Livro de Frankfurt tem 287 agências literárias cadastradas para contato. As novas políticas de ajuda à tradução da literatura brasileira já estão em vigor, segundo publicação da Fundação Biblioteca Nacional.
Nas próximas colunas vamos conversar muito sobre agentes atuando no exterior e no Brasil. Ponderar sobre interesses e negociações em outras línguas. Como avaliar contratos e cessões de direitos autorais em cada país. Vantagens e desvantagens do editor/escritor de estar na Feira de Frankfurt sem agente literário. Afinal são 476.000 metros quadrados para livros, 324.000 metros quadrados nos dez salões multifuncionais e mais 83.000 metros quadrados no exterior, onde se pode encontrar cerca de 7.000 editores, participar de 2.900 eventos e ter 10.000 jornalistas tentando saber mais de sua obra.
O que se consegue fazer em 5 dias de feira? Ou quanto se negocia em no máximo 7 dias na cidade Frankfurt? Como o agente organiza sua agenda para a feira?
Nos próximos 900 dias, a produção literária brasileira vai fazer toda diferença em muitas mesas de grandes e pequenas editoras estrangeiras, ainda que o Brasil pareça ser um mistério a ser revelado.
Apenas para citar uma caso, lembro-me de uma reunião com uma editora alemã, especializada em literatura infanto-juvenil, na qual ela fazia questão que representasse um livro sobre Natal, com neve e tudo o que os anglo-saxões fazem no Natal. A primeira dificuldade era convencê-la que enquanto a Alemanha está em torno dos graus negativos, o Brasil tenta não passar do 40 graus positivos em muitas cidades. Mas de nada adiantou insistir. Sabendo que receberia um livro sem interesse aqui, voltei para o escritório.
No dia 26 de dezembro daquele ano, ainda olhando o Natal com neve na minha mesa, o jornal O Globo estampa na primeira página uma foto de um papai noel descansando na praia. Sossegado na sua cadeira, apenas de calção e regata. O resto da roupa que usara na noite estava pendurada no guarda-sol.
Não perdi a oportunidade. Separei a primeira página do jornal, traduzi a legenda da foto e enviei para a Alemanha. No ano seguinte, em outra reunião com a mesma editora, consegui não saber das novidades de Natal com neve que ela tinha e ainda ouvi muitas histórias engraçadas sobre o efeito da foto na empresa.

 

A formação de Marisa Moura começou pela graduação em Letras na Pontifício Universidade Católica (PUC) de São Paulo, onde assumiu sua paixão pela literatura, da criação à produção. Marisa sentia necessidade de aprofundar-se em Marketing Cultural para Literatura Brasileira, o que fez no mestrado da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Com a idéia fixa de trabalhar com literatura brasileira, abriu a Página da Cultura - www.paginadacultura.com.br – em 1994 e não parou mais. 

A coluna Meio de campo, publicada quinzenalmente, sempre às terças-feiras, reflete sobre o trabalho do agente literário, um profissional atuante nas negociações de direitos autorais internacionais e nacionais e já presente no mercado editorial brasileiro.

 

VOLTANDO AO TEMA CRIAÇÃO DE PERSONAGENS …

Esta é a segunda parte do texto sobre CRIAÇÃO DE PERSONAGENS, trazido pelo excelente BLOG MENINA NO SÓTÃO:

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Hoje eu vou abordar mais uma vez o assunto mais complexo do processo de criação: os personagens. Embora complexo, é um tema pra lá de delicioso. Ao menos pra mim que vivo as voltas com eles.

Todos nós temos os nossos personagens favoritos, eu mesma poderia citar vários, mas não vou fazê-lo porque ao longo desse blog e de tantos outros, já falei deles das mais diferentes formas possíveis…

 

Então vamos ao processo.
A única regra desse processo todo é que um escritor é um eterno pesquisador, porque pra você criar um personagem você precisa ser capaz de se por de lado e ser ele. Sentindo as mesmas coisas que ele. Não é atoa que a maioria de nós faz terapia. rs Se abandonar num canto pra viver a dor do outro, uma dor que de fato não é sua… Mas que acaba sendo sua pelo tempo em que você vive com esse personagem a quem você deve conhecer intima e profundamente e talvez esse seja o processo mais complicado, uma vez que a maioria de nós não conhece nem mesmo a si mesmo. Como falar de si? Como se expor como se você estivesse diante do espelho, analisando não apenas os aspectos físicos, mas os psicológicos também? Bem, é exatamente isso que precisamos fazer quando o assunto é o personagem que irá ser o herói ou o vilão da sua história.

O fato é que os personagens necessitam de uma atenção muito especial. No momento em que a história é criada, eles passam a existir. Alguns se se precipitam e passam a existir bem antes da história, mas na maioria das vezes eles são rasos, disformes, desinteressantes, previsíveis e pior: fora de contexto.

Precisamos nos ater na seguinte condição: personagens precisam ser o mais humano possível. Ele deve parecer com qualquer pessoa comum, como se tivesse sido extraído do cotidiano urbano comum a todos nós. É claro que ele precisa ser um ser único, mas sua essência deve conter características universalmente humanas: ser falho, amável, preconceituoso, detestável, forte, fraco, perfeccionista. As características que definem seu personagem é que vão torná-lo próximo do leitor que irá se reconhecer ali através do amor ou do ódio. Seja como for, é preciso ressaltar que você não pode e não deve julgar suas ações e tão pouco condená-las. Aqui você não é juiz e o seu íntimo deve ser abandonado. Não há espaço para hipocrisias, até porque só sabemos do que somos capazes realmente no último segundo, então fica fácil dizer “eu não faria isso de jeito nenhum”.

Conhecer bem os personagens é justamente o que nos permite aquela liberdade tão necessária para compor a história que vai se projetando lentamente. Por isso as anotações são necessárias. Qualquer faísca de criação, qualquer luz imaginária é preciso ser anotada. A ordem de tudo isso vai permitir que você desenvolva seus escritos de forma natural.

Uma forma de se organizar quanto a tudo  isso é o backstory que é um documento que serve com o base para o escritor. Eu tenho uma agenda onde tomo nota de absolutamente tudo que vai surgindo em minha mente; não deixo passar absolutamente nada. Não tenho uma preocupação com a qualidade do que escrevo, porque são anotações que são narradas as vezes em terceira pessoa em determinado momento (quando o personagem ainda é apenas uma sombra, um esboço) mas então a figura muda e ele passa a ser tão intimo, tão seu que a escrita simplesmente muda para a primeira pessoa e é quando percebo isso que minha vida vira uma bagunça, e mesmo assim me sinto realizada. Objetivo alcançado.
O backstory também serve para você encontrar o tom do personagem: compreender seus passos, seus movimentos, ou seja, sua postura diante das coisas. Uma das minhas personagens tinha a mania de levar o cabelo para trás da orelha quando ficava nervosa. Era um movimento que começava rápido e perdia a pressa no meio do movimento, tornando-se lento. Descobri isso através do backstory enquanto relia as minhas anotações.

 

Em e-pifanias (novela de minha autoria) a personagem Alexandra Mendes não sabe exatamente o que sentir diante da morte do próprio pai. Enquanto a cidade inteira chora, ela está em seu quarto com suas coisas, lamentando a mudança de seus planos graças aquela morte. Esse tipo de sentimento tem toda uma explicação natural, mas se não for bem entendida pelo leitor, pode acabar gerando desconforto o que impossibilita a empatia tão necessária para que o leitor se posicione junto a história.

Resumindo: escrever um livro não é algo tão simples; criar um personagem tão pouco. Não pense que é só sentar diante da tela e mover os dedos e a mente. Há todo um processo anterior a isso. Eu costumo dizer que o mais fácil é jogar para o papel a história quando esta já está definida. O processo que antecede esse movimento é o mais difícil, contudo, fascinante…

 



A CRIAÇÃO DE PERSONAGENS

Este excelente texto sobre o PROCESSO DE CRIAÇÃO DE PERSONAGENS foi publicado originalmente no BLOG MENINA NO SÓTÃO, que merece uma visita …

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Há quem diga que um escritor só é escritor quando publica um livro. Eu confesso que sempre achei graça disso porque pra mim, um escritor se define quando este caminha pelas ruas de uma cidade e observa tudo com olhos de primeira vez: colhendo detalhes que ninguém mais além dele seria capaz de colher.

Então, no dia seguinte, depois de uma noite tranqüila de sono, ele acorda num susto e se vê num mundo que não é nem de longe aquele de antes. E como um louco, insano, perturbado, ele abandona a si mesmo na cama e passa a ser outro. E não se sabe ao certo por quanto tempo.

Possuído por esta estranha figura, ele desvenda uma cidade inteira. Passa por ruas que são suas e de mais ninguém. Ruas que revelam o inesperado como uma menina que sorri quando ele passa e acena. Minutos depois, ela pode ser sua filha, basta que ele a receba de braços abertos quando chegar em casa.

Não está dando pra entender?
Para um escritor, tudo que ele toca com qualquer um dos seus sentidos é parte de um mundo que ele irá traduzir em palavras. Você que está lendo por exemplo, pode ser o personagem principal de uma trama, basta que ele o descubra, o entenda e por fim, o reinvente.

Sempre que me perguntam “como surge um personagem?” Eu respondo: eu morro por algum tempo e ele nasce e quando ele morre, parte de mim se perde e até encontrar, o pranto se estabelece. Não há sofrimento maior que dizer adeus a personagem. Ele é tão parte de você quanto você dele.

Talvez por isso tantos autores deixem escritos inacabados. Fernando Pessoa criou inúmeros personagens, denominados “heterônimos”. Todos eles, com exceção de um, tinham começo, meio e fim. Álvaro de Campos só teve começo e meio. Coube a ele o desafio da eternidade. Tantos outros autores fizeram o mesmo…

Trilhar esse caminho não é fácil. Você passa tanto tempo com um personagem que ele ganha dimensões que vão além da compreensão de qualquer um. Escrever a palavra fim ao final de uma trama é o mesmo que vê-los morrer, mesmo sabendo que estão lá, vivos, de certa forma.
Mas é que quando suas vidas se explicam, suas tramas se finalizam. Nada mais pode ser feito. Fica a saudade da companhia constante, da compreensão íntima e silenciosa. Da cumplicidade que te leva a entender todo e qualquer ato. Você não o condena se ele mata, rouba. Você o aceita porque você criou cada um dos elementos que ele apresenta. Você fez o backstory e soube desde o primeiro contato que seria assim…

Sabia desde então que o perderia se houvesse julgamento e condenação de seus atos. Todos poderiam fazê-lo, menos você. Ao leitor a sentença. Ao escritor a aceitação e a resignação por saber que ele tocou alguém de alguma forma.

Criar um personagem é um processo lento que requer pesquisa de vivência e de campo. É o mesmo que esculpir uma peça de madeira. É preciso antes de tudo ser capaz de saber qual é a melhor madeira, as melhores ferramentas. Imaginar uma forma, desenhá-la na peça e por fim dominar as técnicas especificas. E claro: muita prática. Porque nada acontece simplesmente. E acima de tudo é preciso paciência e evitar a pressa, porque cada coisa tem o seu ritmo, a sua cor e é preciso compreendê-las e aceitá-las

Para Robert Mckee, o que diferencia um artista de um ser humano comum é a capacidade de absorção de informações. A vida de um artista é uma eterna pesquisa: de informações, sentimentos, jeitos e trejeitos. É uma busca incansável de entender o humano que nada mais é que um simples personagem e sua história uma narrativa sendo desenhada para que outros saibam de sua existência…


 

TEMPO DE LER CLARICE

Por HILDA SIMÕES LOPES*, publicado originalmente no site RELEITURAS:

 

Perceba os paradoxos e pense em como nunca o homem foi tão poderoso para o bem e para o mal. Podemos modificar espécies, viajar no sistema solar e destruir o planeta. Montamos uma rede de comunicação universal e instantânea, vemos e ouvimos tudo, falamos quando e com quem queremos. E vivemos imersos em corrupção e violência, banalizamos a vida e a morte e, ruminando pânico, erguemos grades, trancamos portas e nos encarceramos. É o tempo da contradição onde se aprofundam abismos, medos e inseguranças. O homem está abandonado, perdeu o contato com a terra, com o céu. Ele não vive mais, ele existe. Clarice Lispector disse assim.
Nessa época de homens poderosos em todos os sentidos, ler Clarice, a hermética, a intimista, a escritora que se afasta da sociedade em crise para a crise do indivíduo, a escritora do torvelinho das almas, cada vez mais parece água fresca em dia de quarenta graus à sombra.

Clarice Lispector também fala em assassinato mais profundo: aquele que é um modo de relação….. um modo de nos vermos e nos sermos e nos termos, assassinato onde não há vítima nem algoz, mas uma ligação de ferocidade mútua.

Clarice não enxergava a desumanidade do social e sim a das almas, punha a mão na fome de integridade e não na de comida, gritava pela ausência de ser e não pela de saúde e saneamento. Queria mexer na seiva e não nos galhos da árvore. Coisa difícil, afinal a “fome” é imensa e tem muitas faces, e metaforicamente Clarice explica: a pessoa come a outra de fome, mas eu me alimentei de minha própria placenta. E me pergunto se ler sua literatura não é isso mesmo, comer placenta, engolir fermento de vida, deixar as bordas e afundar no miolo.

O interessante é que essa fome por uma humanidade centrada no ser, presente na obra de Clarice Lispector, vive no imaginário dos africanos e faz parte de seu vocabulário. Eles diriam que Clarice Lispector anseia um mundo de “ubuntu”. Tal expressão, usada hoje para sistemas operacionais simples e gratuitos, vem da África onde é bonita em significado como em seu uso virtual. Tem a ver com nossa essência, algo como “sou o que sou devido ao que todos somos”, e para os africanos, quanto mais nos apropriamos dessa idéia mais humanos ficamos. Tem muito “ubuntu” quem não se intimida com o sucesso, a capacidade ou a beleza dos outros porque sabe que, igual ao outro, é parte de um todo, ou quem não rouba do outro porque sabe como atingirá o todo do qual faz parte. Este sentimento nutriu o “ontem eu tive um sonho, todos éramos cidadãos do mesmo mundo” de Martin Luther King, o “Imagine” de John Lennon e vários discursos de Bill Clinton.

Ignoro se Clarice conhecia a palavra africana, mas a idéia se derrama de sua literatura: Não me mostre o que esperam de mim porque vou seguir meu coração, não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual porque sinceramente sou diferente…….. Não copie uma pessoa ideal, copie a você mesma…….. O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.

Claro, Clarice, claríssimo, ser o que se é porque cada um é um e temos de nos somar e não nos copiar.

Os todos poderosos homens de hoje, para o bem e para o mal, como diz Clarice Lispector, não vivem, existem. Vivem apenas um carnaval de vaidades, teres e poderes, usando as fímbrias de suas existências cambaleantes, controladas por comprimidos e sedentas por paz e alegria genuína.

Imagine todas as pessoas/ vivendo pelo hoje / nada porque matar ou morrer / nenhuma necessidade de ganância ou fome / imagine todas as pessoas / compartilhando o mundo todo. John Lennon disse assim. Bem igual a Clarice.

Ele usou a música, ela as metáforas. Era uma humanidade deslumbrada pelo poder tecnológico alcançado, mas eles queriam alcançar a mudança das almas. E alma, sabe? é um negócio imenso. Clarice usou as metáforas porque as palavras não chegavam lá, e acharam difícil de entender. Passou o tempo e o deslumbramento implodiu, todo mundo viu, os poderes avançaram, para o bem e para o mal. Por dentro, fome por outro tempo. Tempo de ler Clarice.

*HILDA SIMÕES LOPES - (1945), é natural de Pelotas (RS). Reside em Porto Alegre (RS). Professora universitária aposentada, socióloga,é escritora com 7 livros publicados, entre eles MANUNAL DE CRIAÇÃO LITERÁRIA, lançado pela EDITORA BARAUNA.