O VENDEDOR DE PALAVRAS

Por FABIO REYNOL*

Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentandoO Vendedor de Palavras que não se liam livrs nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, “indigência lexical”. Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou o dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs.

Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: “Histriônico — apenas R$ 0,50!”.

Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse.

— O que o senhor está vendendo?

— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa.

— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.

— O senhor sabe o significado de histriônico?

— Não.

— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.

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SE EU PULASSE DA PONTE…

Por ADRIANA VARGAS DE AGUIAR do BLOG PURO SENTIMENTO:

Se eu pulasse da ponte
Não molharia apenas os dedos dos pés
Mergulharia intensamente…
Aprenderia a escrever a palavra – liberdade
Com todo o seu sentido…
Chuparia manga me lambuzando
Comeria chocolate com sonho; tomaria sorvete com quilos a mais…
Se eu fosse corajosa e pulasse da bendita ponte
Não invejaria os ousados
conheceria o que há por trás das cortinas
Não mais imaginaria como seria o se…
Se eu me empurrasse da ponte
molharia os pés da virtude
Andaria descalça sem direção
Perderia horas olhando o céu
Desligava a televisão
Me apaixonaria intensamente todos os dias…
Se eu pulasse de ponta da ponte
Eu teria a oportunidade única
De ser eu mesma…

A REVOLUÇÃO DOS LIVROS

por  Wiliam de Oliveira*

E começou assim, como se não tivesse começado, aos poucos, em um movimento silencioso, eles foram ocupando todos os espaços, todas as mentes, todas as casas.

E foram mudando comportamentos, transformando ideias, seduzindo crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.

Na verdade, embora tivessem sempre algo a dizer, muitas vezes ficaram esquecidos, encostados, sujeitos a erosão do tempo, jogados literalmente às traças, como se costumou falar. Amarelados, enfraquecidos, corroídos, pareciam estar mortos e sujeitos às suas próprias limitações.

Porém, o que ninguém sabia, é que mais do que serem vistos e tocados, eram eles que observavam os gestos, liam a vida, espelhavam os homens. Estiveram sempre ali, à espreita, na espera do momento certo, para, então, ao serem retirados de sua aparente passividade, demonstrarem a sua real força como instrumentos permanentes de transformação.

Muitos sabiam do poder que eles tinham, mas a grande maioria olhava-os de longe, e, por razões que não cabe aqui declinar, pouco se atreviam a um contato mais íntimo. Quando isso acontecia, parecia que um novo mundo seria então descoberto.

No entanto, a porta logo se fechava, o mundo se tornava o mesmo, na mesquinhez das coisas, na impotência do não ter, na indignidade dos atos de outros seres.

Mas voltando a nossa história, eles foram se juntando,dia após dia, foram se somando, se multiplicando, se dividindo.

E como um grande exército mundial, vindos de todos os cantos da Terra, eles pularam das estantes, fugiram das bibliotecas, das cabeceiras e criados-mudos, e invadiram, finalmente, a cabeça e o coração de todos os homens da terra.

O era uma vez se fez de vez em um final feliz na grande e definitiva Revolução dos Livros.

WILIAM DE OLIVEIRA é jornalista e professor universitário. Atualmente é diretor da Rádio Libertas FM, em Poços de Caldas/MG e apresentador do programa Hora da Verdade (TV Poços). É autor do livro EDITORIAIS DO HORA DA VERDADE & OUTROS TEXTOS FORA DE HORA.

Contato: wiliam.oliveira@uol.com.br

NOVOS TALENTOS: ANA CAROLINA CARVALHO

DOIS PRÁ LÁ, DOIS PRÁ CÁ

Ana Carolina Carvalho

Vestido de festa preto, meia de seda e sapatos de salto compunham o visual da menina. Bonita e desajeitada. Em plena adolescência, aprendendo a se equilibrar, chegando perto das mulheres que antes só lhe cabia admirar. A primeira vez. Mesmo quieta, sentia que agora fazia parte do som da festa. Por anos, apenas escutara de seu quarto o burburinho, imaginando o enredo. Música, falas, copos, risadas. Olhava o pai recebendo os primeiros convidados. A mãe dava uma última mirada na sala sem móveis transformada em pista. Uma piscadela para a filha. Um sorriso para uma amiga. Um gole na bebida. O pai começava a ser tirado para dançar. A mãe mexeu de modo tenso no vestido. A filha percebera. Ecoava a briga da tarde. Você que não dance com as outras, com todas, menos comigo! Não faça papel de louca! O pai dançarino. A mulher agradeceu-lhe a dança com um beijo longo no rosto. Muito perto da boca. A menina entendia a mãe. Há muito, o marido não lhe fazia o par. Queria mantê-la longe do garçom. Mas vidrada no pai, perdera a conta dos copos da mãe. Presenciaria o escândalo que das outras vezes apenas ouvira do quarto, apertando com força o travesseiro e fechando os olhos como se fossem ouvidos. Algumas mulheres amparam a mãe, pegam-lhe pelo braço, oferecem-lhe café. As lágrimas turvam a cena e borram a maquiagem da menina. Uma mão quente e firme toca em seu ombro nu. Reconhece a voz. Vamos dançar, minha filha? E concentra-se nos passos de seu professor. São dois prá lá, dois prá cá.

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Ana Carolina Carvalho (1971), psicanalista, educadora e escritora, tem feito colaborações para editoras, na intersecção entre literatura, formação de leitores e professores. Desde janeiro de 2008 mantém o blog “Pena de Aluguel”, no qual publica textos de ficção e notas sobre literatura e formação de leitores.


E-mail: ana.carvalho@terra.com.br

Blog: http://www.blogpenadealuguel.blogspot.com/