LIVROS DEMAIS – LIVROS DE MENOS

Artigo escrito por FELIPE LINDOSO, publicado originalmente na coluna O X DA QUESTÃO, do PUBLISHNEWS, edição de 03.11.2011:

A produção de novos títulos tem aumentado exponencialmente desde que a edição digital se popularizou, especialmente nos Estados Unidos. Uma empresa como a lulu.com, especializada em self publishing, anuncia que tem mais de 1.100.000 “criadores”, dentro de um grande número de categorias, que incluem de livros de fotografias a romances, tanto em formato eletrônico como impressos sob demanda. E a lulu.com é apenas uma entre várias empresas desse segmento.
A Agência do ISBN nos Estados Unidos já chegou a outorgar mais de dois milhões de números em um único ano (2010), números que incluem todos os tipos de publicação, incluindo as digitais e as autopublicadas.
O fenômeno não se restringe aos Estados Unidos. No Brasil já ultrapassamos a marca das 50 mil edições e reedições anuais (considerando apenas as editoras comerciais), segundo a pesquisa de Produção e Vendas do Mercado Editorial, da FIPE/CBL, que não inclui os livros autopublicados.
E o fenômeno se repete em todos os países.
Há alguns anos tive a oportunidade de conhecer um livro muito interessante, escrito por um filósofo mexicano, Gabriel Zaid. Chama-se “Livros Demais”, que eu traduzi e a Editora Summus publicou aqui em 2004.
Nesse livro delicioso, Zaid trata justamente dessa proliferação de títulos. Lembra ele que, se alguém se dispusesse a simplesmente ler o nome dos títulos publicados em apenas um ano no mundo inteiro, gastaria mais que uma vida para fazer isso. E o ritmo não diminui.
Quem entra em alguma das grandes livrarias, as megastores que já existem em várias capitais (Saraiva, Cultura, Fnac, Livrarias Curitibas, Leitura e outras cadeias), chega a se sentir intimidado com a quantidade de livros. Na minha casa comentamos que livros não produzem filhotes, e sim ninhadas. A multiplicação é estonteante, e sempre acabamos comprando livros que certamente jamais conseguiremos ler.
Gabriel Zaid desenvolve alguns raciocínios interessantes em seu livro. Um deles é quando postula que cada título possui um número determinado (embora não reconhecível) de leitores, segundo sua “amplitude de interesse”. Por exemplo, um livro sobre aranhas transgênicas poderá ser de muito interesse para, digamos, quinhentas pessoas. Não mais que isso. Um título popular, por sua vez, pode ser desejado e legível para milhões de pessoas.
O grande problema, diz Zaid, é fazer que esse público saiba da existência e reconheça o que lhe interesse, encontre-o e o leia. Esse “encontro feliz” entre o livro e seu leitor é o que completa e dá sentido à publicação de um livro.
Infelizmente é muito difícil que esses encontros aconteçam em sua plenitude. Sempre haverá quem esteja profundamente interessado em aranhas transgênicas e não consiga ser apresentado ao livro, deixando assim um buraco notável em sua vida de leitor.
Outro problema, diz Zaid, é que esse número de leitores, apesar de determinado, não é previamente conhecido. Pior ainda: os autores tendem a superestimar o número possível de seus leitores. Assim, no caso do nosso hipotético livro sobre aracnídeos geneticamente modificados, seu autor pode até ter a ilusão de que, em vez de trezentos leitores, seu livro seja “desejado” por cinco ou dez mil outras pessoas, e fica profundamente frustrado quando percebe que só vendeu uma parcela ínfima dessa quantidade. Afinal, o autor do livro sobre aranhas pode também sonhar em ser um mega vendedor de livros, um Paulo Coelho da entomologia.
Por outro lado, diante da imensa diversidade de experiências humanas, é possível imaginar que sempre haja alguém interessado na leitura de algum título. Não apenas aranhas transgênicas merecem ter seu livro. Parafraseando Terêncio, que disse que “nada do que é humano me é estranho”, poderíamos dizer que “nada do que é humano pode deixar de ter um livro”. Desde que, é claro, ache outro ser humano que se interesse.
Se conseguíssemos encontrar uma maneira eficiente de fazer essa ponte entre cada título e os seus leitores predestinados, e diante da constatação da proliferação de títulos, poderíamos afirmar que, afinal de contas, há ainda livros de menos.

 

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.brA coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

O LEITOR, ONDE ESTÁ O LEITOR?

Artigo publicado originalmente por ESTADAO.COM.BR/CULTURA:

Por Affonso Romano de Sant’Anna

Os editores brasileiros revelam que estão publicando livros “demais”. Isto é uma verdade ou um mal- entendido? Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras disse a este caderno que publica 280 títulos por ano e que “não dá para crescer mais com obras de mercado, até porque o mercado está muito competitivo. (…). Há editoras que hoje não conseguem entrar em redes de livrarias com um exemplar de algum título. Há uma superprodução. De livros, escritores, editores, um número de editoras grande surgindo”.

Sergio Machado, do Grupo Editorial Record, informou, também aqui, que em 2010 o Brasil editou 55 mil títulos, numa média de 210 obras por dia. Só a própria editora Record, comentou, coloca no mercado 80 títulos por mês. Seu proprietário revelou que tem 2 milhões de livros em galpões que lhe custam uma despesa alta.

Eis uma crise paradoxal. De excesso e de carência. Excesso de livros ou carência de leitores? Assim como um copo com metade de água pode ser visto como um espaço metade cheio ou metade vazio, permitam-me examinar a questão por outro ângulo, fazendo uma correção: o Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos. Há que “produzir” o leitor. E não estou falando de alfabetização. Essa cadeia do livro não existe sem o destinatário: o leitor. Não há excesso de livros, há falta de bibliotecas, de livrarias e de leitores. Há, por outro lado, centenas de iniciativas governamentais e particulares tentando corrigir isto. Todos, não só os editores, temos que modificar o conceito de livro, livraria, biblioteca, leitor e leitura, pois na verdade todo esse sistema em torno do livro está em crise (ou “metamorphose”).

Mas que crise é essa? Vejamos.

Crise, leitura e o pré-sal. Falar de leitura é uma auspiciosa novidade. Na década de 20 do século passado, Monteiro Lobato fundou uma editora brasileira e a literatura infantil. Com Borba de Morais e Mário de Andrade, na década de 30 redescobriu-se a biblioteca pública. Na mesma época o governo federal criou o Instituto Nacional do Livro pensando em editar uma enciclopédia e livros. Nos anos 50, Paulo Freire reinventou a alfabetização fazendo um plantador de cana aprender a ler em 45 dias.

Mas o conceito de leitura sempre esteve oculto, era o não-dito.

Leitura não se limita à “alfabetização”. Leitura não se limita à escola: trata-se de formar uma sociedade leitora, para o País enfrentar os desafios do século 21. Só em 1992 é que através do Proler pensou-se em implementar uma Política Nacional de Leitura. E desde 2006 que o PNLL (Plano Nacional do Livro e da Leitura) insiste numa política de leitura que atravesse todos os ministérios e seja uma determinação da Presidência da República. A rigor se poderia dizer: leitura é uma questão de segurança nacional.

Considerada a leitura como algo além da escola, algo além da alfabetização, algo que vai lidar com o “analfabetismo funcional” e com o “analfabetismo tecnológico”, haverá (como já começa a haver) programas de leitura em hospitais, quartéis, fábricas, sindicatos, empresas, tribos indígenas, igrejas, condomínios, acampamentos agrários, comunidades quilombolas, favelas, programas para aposentados e programa para cegos, surdos, mudos e outros deficientes físicos, etc.

Nos últimos anos, “agentes de leitura” e “mediadores de leitura” se espalharam pelo Brasil. A experiência positiva dos agentes de leitura no Ceará foi levada para o Ministério da Cultura e expande-se em vários Estados. No Acre foram criadas mais de cem Casas da Leitura interagindo com uma nova maneira de ler a cultura e a natureza. Os agentes ou mediadores de leitura devem chegar a 15 mil brevemente e têm sido treinados por instituições como a Cátedra de Leitura da PUC-RJ. O ideal é que se mesclem com os “agentes de saúde” e os “médicos de família”.

Nessa redescoberta da leitura, onde havia apenas o Instituto Nacional do Livro, espera-se a criação do Instituto do Livro, da Leitura e da Biblioteca e a nova administração da Fundação Biblioteca Nacional planeja construir 25 mil bibliotecas populares com livro de qualidade a 10 reais.

Enfim, a leitura é o verdadeiro pré-sal. O petróleo em si não resolve os problemas básicos de um país. Há países que têm petróleo e têm terríveis desigualdades sociais e opressão política. Ha países que não têm petróleo e estão na ponta do processo civilizatório. E todos os países que realmente se desenvolveram passaram pela leitura. A leitura torna os livros vivos e desenvolve os países.

Torna-se irrecusável contar uma história verdadeira que narrei na recente Jornada Literária de Passo Fundo (agosto/2011), quando Alberto Manguel e Kate Wilson debatiam equivocamente sobre esse tema. Diz-se que o Marechal Rondon, no princípio do século passado, foi designado para conquistar grande parte do território brasileiro levando a comunicação através de postes e fios que conduziam mensagens telegráficas. Depois de ter instalado praticamente em todo o País esse sistema de comunicação, ao colocar o último poste na fronteira da Bolívia foi surpreendido com a notícia de que Marconi havia acabado de descobrir o telégrafo sem fio.

Cem anos depois a situação se repete. Conseguiremos fazer na era do livro eletrônico o que não conseguimos fazer na era do livro impresso?

Se não conseguimos em 500 anos colocar uma biblioteca em cada canto do País, por outro lado, cada cidadão está se convertendo, à revelia de nossa incompetência histórica em um “consumidor” de informação através da informática, do Google, da internet. Se temos apenas 2.600 livrarias e 2.500 cinemas, é bom que nos espantemos e nos rejubilemos com o fato de que temos 109.000 lan-houses e que só uma favela como a da Rocinha, que tem apenas uma biblioteca heroicamente construída e seguramente não possui nenhuma livraria, tem, por outro lado, 200 lan-houses.

Inclusão digital
Tem-se falado muito de “inclusão digital”. O Ministério da Comunicação (Gesac) informa que “telecentros” estão sendo implantados em todo o País e já existem 13.379 em 5.564 municípios. Eles podem ter o papel que as bibliotecas convencionais deveriam ter tido. Os “promotores de inclusão digital” são irmãos gêmeos dos recentes “agentes de leitura” ou “agentes de cultura”. Os telecentros oferecem 6.200 kits do MC às prefeituras. O telefone portátil, o iPad e o Google são uma realidade. Os 200 milhões de telefones portáteis são 200 milhões de bibliotecas em potencial à espera de nossa criatividade. Assim como um viajante do século 18 tinha uma maleta de viagem em que carregava algumas dezenas de livros para ler, hoje pela internet todos podem ter uma biblioteca em suas mãos, seja nas margens do Tocantins ou no Sul do País.

O Brasil está vivenciando três fatos novos: 1) A invasão da eletrônica em nossa vida cotidiana, nos jogando em outra era. 2) O surgimento de outras gerações chamadas de X, Y, Z, pelos especialistas em marketing: jovens que vivem zapeando. São “dispersivos”, fazem várias coisas ao mesmo tempo, não têm o sentido de “concentração” unidirecional que era a nossa. Nós os achamos superficiais. Mas e se estivermos realmente diante de um fenômeno de mutação não exatamente genética, e sim cultural? Um daqueles momentos de “point of no return” que remete para a metáfora que McLuhan usou: a lagarta assustada olhando uma borboleta em seu esplendor, dizia: “Eu nunca me transformarei num monstro daqueles…”.

3) A emergência das classes C, D e E que até agora estavam fora do mercado, da comunicação e da cultura livresca. Quando a gente fala de classe C, falamos de um século de exclusão, sem saúde, sem saber o que é política.

Lembremos: o aprendizado já foi oral – o essencial era o uso da memória. Com a evolução, o saber passou a ser escrito. Hoje, passa pelo visual. Ou pode-se dizer, é oral, é escrito e também visual. O oral, o escrito e o visual se complementam.

Em algumas ocasiões tenho dito que, provavelmente, somos a última geração letrada. Gostaria de estar equivocado, que o futuro me desmentisse. Ou que descobrisse, descobríssemos formas novas de ler. Se olharmos a história do Brasil podemos detectar três momentos culturais e econômicos relevantes que nos forçam a uma decisão crucial no presente:

1) A febre do ouro e da pedras preciosas ocorreu quando éramos colônia e essa riqueza escoou para os cofres dos dominadores.

2) Tendo perdido essa chance, perdemos também a chance da revolução industrial nos séculos 18 e 19, porque aqui predominava a escravidão, a cultura agrária e a coroa brasileira era apenas cliente dos produtos industrializados europeus.

3) Estamos diante da revolução digital. Se perdemos as duas revoluções anteriores, hoje há algumas coincidências: a revolução digital chega com a avassaladora globalização, no momento em que o Brasil autossuficiente de petróleo incorpora outras classes e descobre o pré -sal.

Repito, para terminar: o verdadeiro pré-sal é a cultura e/ou a leitura. Os animais, os peixes, as árvores e até as bactérias leem constantemente o mundo antes de tomarem qualquer decisão. Por que o ser humano insiste em andar às cegas no universo da comunicação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA É ESCRITOR, EX-PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, CRIADOR DO PROLER (PROGRAMA NACIONAL DE INCENTIVO À LEITURA), DO SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS, E EX-SECRETÁRIO GERAL DA ASSOCIAÇÃO DE BIBLIOTECAS NACIONAIS IBERO AMERICANAS, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE SÍSIFO DESCE A MONTANHA (POESIA, ROCCO)

BANIR OU CENSURAR?

Publicado originalmente por PUBLISHNEWS. Escrito por Dolores Prades:

 

Nasci e cresci entre livros. Na minha casa havia uma boa biblioteca, meus pais eram leitores, se falava de livros à mesa, em reuniões. Sem dúvida, um privilégio. Me lembro de, desde sempre, ter uma estante no meu quarto com meus livros, muitos dos quais me acompanharam, atravessaram o Oceano, quando nos mudamos da Espanha para o Brasil. Até hoje, alguns deles, bastante comprometidos fisicamente, encontram seu lugar em casa.
Reconstruindo minha história de leitura, me lembro de vários livros, muitos deles informativos, de conhecimento, em cima dos quais meu irmão e eu passávamos fins de semana inteiros copiando ilustrações e sonhando com as novas descobertas. Porém, meu livro de referência, aquele cuja leitura me marcou profundamente e que li e reli, já nem me lembrou quantas vezes, foi O diário de Anne Frank. A memória é tão forte que, com ou sem o peso do tempo, me lembro das emoções e das marcas de vários momentos dessas leituras, quando frente à indignação e à profunda solidariedade com Anne, olhava pela janela da minha casa em Madrid e era difícil parar de chorar. Me lembro também de Oliver Twist, de Pinóquio, de vários livros de Dickens…
Mas, se estas são algumas das lembranças mais marcantes das minhas primeiras leituras, não posso esquecer-me de alguns personagens que povoaram a minha infância e sem os quais provavelmente as minhas recordações seriam bem diferentes. Isto porque certamente meu imaginário e algumas de minhas primeiras referências sobre o mundo foram dali extraídas. Penso nas histórias em quadrinhos, nos gibis, em Asterix e em todos os gauleses, em Tintin, em Babar, no Pato Donald. Se a isso somarmos os filmes de Disney, Os Flinstones e algumas séries como A Feiticeira, parte de minhas primeiras referências está desvendada.
Ao ler a notícia Tintin no Congo insulta os negros” num jornal espanhol há alguns dias fiquei pensando até que ponto essas minhas leituras de infância interferiram na minha formação ideológica e puderam ser tão marcantes nesse plano. Principalmente numa época em que essas questões eram vistas com naturalidade, sem grandes advertências, diferente do que ocorre hoje.
Essa cruzada contra os conteúdos “politicamente incorretos” não é privilégio do Brasil e o ataque a Lobato não é isolado, mas parte de uma tendência mundial que coloca de lado obras e autores da envergadura de um Lobato, de um Dickens, de um Twain, só para citar alguns. É inegável que há traços de racismo, de discriminação e de preconceitos em muitos desses autores. É inegável também que essas histórias não se resumem a isso, se tornaram clássicos e sobrevivem até hoje. Supor que esses autores devam ser banidos da infância ou “adaptados” aos novos tempos, em nome de uma nova consciência contemporânea, é no mínimo perigoso, arbitrário e empobrecedor.
Se de fato, as consciências do século XXI se chocam com muitas coisas até poucos anos atrás consideradas dentro da normalidade, isso não quer dizer que a infância e a juventude devam ser “protegidas” de tudo que não estiver de acordo com essa nova filosofia dominante. Ao contrário, pois muitos de nós que tivemos, naturalmente, contato com essa literatura “comprometida” ideologicamente não nos tornamos, por exemplo, racistas ou preconceituosos.
As crianças e jovens de hoje podem, sim, usufruir da qualidade literária e da fantasia que caracterizam esses autores e suas obras. Entrar em contato com diferentes modos de ver e interpretar a realidade pode levar a uma reflexão sem artificialismos sobre tolerância e diversidade. Além disso, crianças e jovens dirigem o foco sobre aspectos, na maioria das vezes, opostos aos dos adultos. O ponto de vista e o peso diferem não só pelo olhar leve e aberto e pela ausência de preconceitos, mas também e, porque não, por não se levar tão a sério e deixar fruir a imaginação, o sonho, o humor, a ironia que muitos adultos perderam.
Essas questões são um prato cheio para refletir a edição da literatura para crianças e jovens e a mediação, pois remete a critérios e a quem temos em mente como sendo nosso receptor. O que é importante e para quem? Se por um lado é cada vez mais difícil encontrar livros com conotações politicamente incorretas ou menos edificantes, por outro o humor, a brincadeira, a ludicidade, o maravilhoso, a irreverência e a transgressão, o suspense, o medo e a aventura, são, sem dúvida, elementos que historicamente capturaram o jovem leitor.
O que ficou de lembrança de minhas leituras de Tintin? A vontade de virar repórter e viajante, o suspense, a esperteza da personagem em desvendar mistérios, as tramas de espionagens, os países sequer imaginados, as aventuras sem fim e, claro, Milou, seu cachorro astucioso e companheiro inseparável. Fui forjando uma visão crítica com o tempo, com o contato com outras leituras, com o amadurecimento de meu ponto de vista e de minhas referências. Tudo isso me fez entender melhor a personagem e o contexto onde se desenrolam as aventuras, ir mais fundo no tempo da obra.
Suponho que todos os que fomos marcados por esses autores compartilhamos de um mesmo prazer e de lembranças comuns. Gostaríamos de mantê-las vivas nas novas gerações? Ou vamos aderir à censura das obras literárias que não condizem com a nossa época?
Em tempo: Dia 18 de outubro é último seminário do Conversas ao Pé da Página 2de 011, com o temaJovens, leitura e literatura. Vale a pena assistir. Inscrições aqui.

Dolores Prades é editora, gestora e consultora na área editorial de literatura para crianças e jovens. É também curadora e coordenadora do projeto Conversas ao Pé da Página – Seminários sobre Leitura e coordenadora da área de literatura para crianças e jovens da Revista eletrônica Emília - www.revistaemilia.com.br

 

Pequenos grandes leitores é uma coluna que pretende discutir temas relacionados à edição e ao mercado da literatura para crianças e jovens, promover a crítica da produção nacional e internacional deste segmento editorial e refletir sobre fundamentos e práticas em torno da leitura e da formação de leitores. Ela é publicada quinzenalmente, às segundas-feiras.

 

A PERGUNTA AGORA É: OS E-READERS VÃO SOBREVIVER?

 

PublishNews –  Maria Fernanda Rodrigues

Discutir se há um futuro para o livro impresso é coisa do passado. Editores viraram o disco e agora se perguntam que tipo de aparelho as pessoas vão escolher para ler livros digitais: e-readers ou tablets? “Não é uma questão de ter um e-reader ou um tablet, mas de poder sincronizar todos os seus aparelhos”, melhor respondeu Riccardo Cavallero, da Mondadori. O assunto foi levantado na manhã desta segunda-feira, dia 10, em Frankfurt, nos dois primeiros painéis da Conferência PublishersLaunch, organizada pelo consultor e colunista do PublishNews Mike Shatzkin e por Michael Calder, responsável pelo boletim Publishers Lunch. A empresa AT Kearney apresentou números relacionados à utilização de e-readers e tablets nos principais países. De todos os países consultados, apenas no Reino Unido os tablets superam os leitores de livro eletrônicos (3.4% contra 2.6%). Nos Estados Unidos, a relação é equilibrada, com os tablets tendo entre 8% e 9% de penetração e os e-readers, entre 9% e 10%. Com relação ao número de e-books disponíveis, o Brasil, único país da América Latina consultado, está na lanterna, com 6 mil títulos. Os mais avançados são Estados Unidos (1 milhão), Reino Unido (400 mil), Alemanha e França (80 mil cada), China (60 mil), Japão (50 mil), Austrália (35 mil), Itália (20 mil) e Espanha (15 mil).

 

DIA DAS CRIANÇAS: CARTA AOS PAIS

Publicado originalmente pelo blog O CÃO QUE COMEU O LIVRO:

“Um livro é sempre uma caixa de ferramentas”.

Carta aos pais

Não sei se já reparou numa coisa muito simples: um livro é sempre uma caixa de ferramentas. Há livros para tratar das plantas, há livros para ensinar a conduzir um carro, há livros para viajar pelo mundo fora, há livros para mostrar como se vive em sociedade, há livros para conhecermos as naus, os piratas, as aventuras dos mares e as ilhas dos tesouros, há livros para adormecer e histórias para levar as crianças a comerem a sopa. Mas sejam livros práticos, ou livros de ensino, ou aquilo a que se chama literatura, isto é, romances, poesia, ensaio, teatro, pensamento, história, todos os livros foram feitos, escritos e impressos, distribuídos, dados e vendidos, para ajudar cada um de nós a viver. E é por isso que há livros onde os filhos aprendem a gostar dos pais, os pais descobrem que os filhos não são exactamente como eles eram quando foram os filhos que ainda são, e há livros onde se ensina a ver paisagens, e outros que nos trazem os cheiros e os sabores de outros lugares, e há livros para aprender a namorar, a dizer a ternura, o amor, a dificuldade de dizer, o medo de envelhecer, a tristeza, o deslumbramento de o mundo existir à nossa volta. E nada, absolutamente nada, substitui essa enorme alegria de abrirmos um livro, de lermos meia dúzia de palavras, e vermos um outro mundo possível a nascer dentro dos nossos olhos e das nossas próprias palavras. Hoje em dia, é tudo muito rápido, e a gente perde-se no meio das informações, dos noticiários, dos jornais, das televisões, das internets, dos telemóveis de todas as gerações, e por vezes precisamos de fazer uma pausa, parar para arrumar as coisas à nossa volta e começarmos a pensar com a nossa própria cabeça. Pode ficar certo de que para nos ajudar a pensar, a trabalhar naquilo de que se gosta, a ser mais produtivo e criativo, ainda não se inventou nada de mais eficaz do que um livro. Um livro anda mais devagar, mas dá tempo ao tempo. Ao tempo para viver melhor. Vá com o seu filho a uma livraria, compre-lhe um livro de que ele goste, inscreva-o numa biblioteca, descubra o seu filho nos livros que ele lê e fique mais próximo dele ao falar-lhe dos livros que leu. Lentamente, mas definitivamente, cada livro novo vai fazer parte da família.

 

FEIRA DE FRANKFURT: COMO SE DESTACAR ENTRE 7.300 EXPOSITORES?

 

PublishNews - 10/10/2011 – Maria Fernanda Rodrigues

Confira o que o Brasil está preparando para a Feira de Frankfurt, que começa oficialmente na noite de terça, mas que já agita a cidade alemã


Fotógrafo: DivulgaçãoEntrada para o Pavilhão 5, onde ficará a maioria das editoras brasileiras

 

A maior feira de livros do mundo abre suas portas na próxima quarta-feira em Frankfurt (a cerimônia de abertura será na terça à noite) e o Brasil se esforça para se destacar no meio de tanta gente. Serão 7.300 expositores e 290 mil profissionais do mercado editorial vindos de 100 países, que andarão para cima e para baixo numa área equivalente a 14 campos de futebol.
O estande do Brasil, organizado pelo projeto Brazilian Publishers, terá 180 m2 divididos em duas áreas e será um pouco maior do que o do ano passado (120 m2). Livros de 50 editoras brasileiras estarão expostos lá. No total, elas mandaram para a feira 1.782 títulos (2.501 exemplares). O número de livros enviados caiu ligeiramente em relação à edição passada. Em 2010, foram 2.870 exemplares. “Acredito que esse decréscimo na quantidade de livros enviados tenha ocorrido porque o editor está mais criterioso e mandando apenas aqueles com mais potencial de venda”, avaliou Dolores Manzano (Dosh), responsável pelo projeto.
Nesta área, chamada de “Business”, haverá, além das estantes com os livros, mesas para reuniões. Aos editores brasileiros que quiserem descansar um pouco será oferecido ali, no final do dia, pinga e caipirinha.
Já o “Lounge” terá de 66m2 e funcionará como um espaço mais reservado para reuniões dos presidentes das entidades de livro. Lá também será realizado o encontro Have a look at Brazil no dia 13, às 11h. Nova Zelândia e Georgia também terão os seus “Look At”, mas Dosh contou que a edição brasileira foi a mais procurada, com 87 inscritos. As pessoas inscritas e quem mais estiver passando pelo local na hora da apresentação poderão ouvir Karine Pansa, presidente da CBL, e Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, falando sobre o mercado brasileiro e sobre o recém-lançado projeto que prevê uma maior presença da literatura brasileira em outros países a partir do apoio à tradução. Também será exibido um filme sobre o Brasil. Vinhos e frutas do Brasil, fornecidos pelos parceiros da Apex, serão servidos aos convidados depois das apresentações. Frutas brasileiras também estarão à disposição dos visitantes.
A mudança no tamanho do estande, a movimentação do MinC e de outros parceiros do livro mostram, para Dosh, que o Brasil está empenhado em fazer bonito em 2013, quando será o país homenageado.
O estande brasileiro está sendo organizado pelo Projeto Brazilian Publishers, da Apex e CBL, e ainda pelo Snel e Fundação Biblioteca Nacional. Da CBL, vão quatro pessoas. O restante da equipe – 11 pessoas – é formada por alemães.
Oportunidade desperdiçada
Cada editor presente à feira através do projeto Brazilian Publishers ou com estande próprio teve a oportunidade de cadastrar, gratuitamente, 10 títulos no site da feira. Até o fim da semana passada, livros de apenas 12 editoras eram encontrados no catálogo oficial virtual.
Este ano o Brasil terá dois catálogos impressos porque não deu tempo de fazer o tradicional unificado, com associados da CBL e do Snel. Algumas editoras também não mandaram suas informações em tempo de entrar no catálogo impresso, mas estarão no catálogo virtual que poderá ser acessado em uma tela no estande.
Além do estande coletivo
O estande coletivo fica no Pavilhão 5.1, E941. Outras editoras brasileiras estarão neste mesmo pavilhão, mas participando da Feira de Frankfurt de forma independente. São elas: Companhia das Letras (E950) e Grupo Record (E954). Editoras brasileiras pertencentes a grupos editoriais internacionais terão seus livros expostos no estande de seus grupos. Entre elas estão a Planeta (C937), Ave-Maria (B948), Paulinas (B939) e Paulus (B951).
No Pavilhão 4.2, dedicado a editoras do segmento educacional, estarão o Grupo GEN (G451), Grupo A (J406) e P3D Educação (D1440).
No Pavilhão 6, estarão as agências literárias Riff e Katia Schumer.
Brasil na programação oficial
Além de ser um dos destaques da série “Have a look at”, o Brasil estará em outros espaços da feira. O principal evento é a 25th Rights Directors Meeting, no dia 11 de outubro, das 14 às 17h, que este ano focará a primeira parte de sua programação no Brasil e a segunda nas possibilidades de parcerias internacionais para o lançamento de aplicativos. Para apresentar o mercado brasileiro foram convidados a agente literária Lucia Riff e os editores Tomas Pereira, da Sextante, e Eduardo Blucher, da Blucher. [Para outras informações sobre este evento, confira a matéria publicada na edição de sexta-feira, dia 7, do PublishNews]
Galeno Amorim, presidente da Biblioteca Nacional, falará sobre o programa de apoio à tradução dentro da programação do Forum Dialogue (Pavilhão 5, A962) no dia 12 de outubro, às 16h15. A organização deste evento é do Consulado Geral do Brasil em Frankfurt.
Os escritores Marcelo Ferroni e Carola Saavedra participam de bate-papo com o tradutor Michael Kegler no sábado, dia 15, das 15h45 às 16h45, no Pavilhão 5.0 (D963). “Who or what tells us of Brazil?” é o nome da atividade organizada pelo Centro Cultural Brasil em Frankfurt que pretende discutir a produção literária contemporânea. [Leia a entrevista feita pelo PublishNews com o alemão, que tem projetos de tradução de autores brasileiros na gaveta e que pretende tirá-los de lá agora que o Brasil lançou o edital de apoio à tradução]

 

O QUE ESPERAR DA PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NA FEIRA DE FRANKFURT?

 

PublishNews – 10/10/2011 – Redação

Por Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional:

 

A Feira do Livro de 2011 em Frankfurt é considerada extremamente estratégica para o Brasil criar as condições necessárias para uma participação em grande estilo em 2013, quando o país será homenageado. É o momento de sinalizar para o mercado internacional duas coisas: primeiro, a firme determinação do governo brasileiro de fazer os investimentos necessários para ampliar a presença livro e da literatura do Brasil no cenário mundial; em segundo, que isso passa a ter o caráter de política de estado, e não uma ação deste governo. Para isso, estamos anunciando recursos, metas e ações até 2020, oferecendo segurança e previsibilidade, algo fundamental para construir a credibilidade necessária nesse mercado. Por isso, além dobrar o estande do Brasil em 2011, algo que deve ser crescente nos próximos anos, vamos aproveitar o cenário de Frankfurt para lançar lá fora nossa política de internacionalização para editores e agentes literários. Também aproveitarmos para fazer todos os contatos necessários em Frankfurt e nas principais cidades alemãs para já começar a reservar museus, teatros e outros espaços onde desenvolveremos uma ampla programação durante todo ano de 2013. [Galeno Amorim é presidente da Fundação Biblioteca Nacional]

 

 

MERVAL PEREIRA TORNA-SE IMORTAL

Sempre atento ao mercado editorial, o PUBLISHNEWS nos lembra na edição de hoje que o jornalista e escritor carioca Merval Pereira toma posse nesta sexta-feira, dia 23 de setembro, da cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras (ABL), que pertencia a Maocyr Scliar. A cerimônia está marcada para às 21h e acontece no Salão Nobre do Petit Trianon (Av. Presidente Wilson, 203, Castelo – Rio de Janeiro/RJ). O jornalista foi eleito no dia 2 de junho com 25 dos 39 votos, derrotando, assim, o escritor Antônio Torres.

Ao ver a notícia não pude deixar de lembrar a crítica feita pelo BLOG DA CIDADANIA, salientando que escolhas políticas sempre marcaram a história da ABL, que preteriu em favor de “imortais” da estirpe de um ex-presidente José Sarney ou de um cirurgião plástico como Ivo Pitanguy ou, agora, de um Merval Pereira:

Carlos Drummond de Andrade

Cecília Meireles

Clarice Lispector

Erico Veríssimo

Lima Barreto

Mário Quintana

Monteiro Lobato

Vinicius de Moraes

Também não participaram da Academia os escritores Jorge de Lima e Gerardo Melo Mourão, indicados ao Prêmio Nobel de Literatura.

 

5 DICAS PARA AUMENTAR A VENDA DE LIVROS

Post muito interessante, publicado originalmente no blog  NO MUNDO E NOS LIVROS:

 

Todo escritor independente sabe como é difícil para vender seus livros e muitos não sabem como fazer para aumentar a divulgação do seu livro e consequentemente o número de exemplares vendidos.

Nossas ‘”5 Dicas Altamente Eficazes para aumentar a venda de livros” vão ajudá-lo nesse processo.

Seja esse seu 1° ou 10° livro já publicado.

Essas dicas são para escritores independentes, ou seja, que escolheram fazer todo trabalho sozinho, desde enviar para a gráfica, publicidade, marketing e distribuição.
Então vamos a elas?

Palestra - Isso mesmo, comece a dar palestras sobre algo ligado ao tema/conteúdo do seu livro (esporte, saúde, ficção, política, finanças…). Oppss… espere aí. Você ai seu fulano de tal que nunca ninguém ouviu falar vai dar palestras? Agora vai e não cobrará nada por isso, eis o pequeno grande detalhe. Você não cobrará nada pelas palestras, mas vai carregar seus livros com você para poder vendê-los. Você pode dar palestras em outros eventos que disponham espaço para tal, como poderá criar seu próprios eventos.
Inicialmente se ofereça e logo viram os convites.

Entrevista - Participe ativamente de programas de rádio, pois eles geralmente oferecem espaço para uma boa conversa sobre determinado assunto. Quando for convidado a dar entrevistas deixe o livro em segundo plano e mantenha o foco no assunto, mas sempre fale sobre seu livro. Rádios universitárias, jornais, todos sempre tem como ajudar.

Feira do Livro - Nessas feiras existe uma grande oportunidade de se fazer contato e vender seus livros, mas você precisa também participar de feiras de outras cidades e não ficar restrito e fechado somente na sua cidade.

Internet - Você decidiu fazer todo trabalho sozinho lembra? Então não tem jeito, você precisa aprender a lidar com a internet. Você pode e deve participar de redes sociais como orkut, facebook, twitter… além de participar de comunidades, grupos e redes que falam sobre o assunto referente ao seu livro.
Faça um site para o seu livro onde os visitante e leitores tenham como comprá-lo. É muito fácil vender online e  com segurança usando uma ferramenta como a do PagSeguro do grupo UOL
Muita atenção, pois hoje é muito fácil ter um site/blog para você e para o seu livro e isso é essencial para o você vender seu livro e ficar mais conhecido. Você vai ficar conhecido no Brasil e no Mundo o que é melhor ainda.

Livrarias - Você pode tentar vender seu livro nas livrarias, mas existe a grande possibilidade de o mesmo ficar lá por um bom tempo e não ficar num lugar muito bem visitado da livraria. Além disso pode ser pago a você somente quando for vendido. Porém esta não deixe de ser um bela opção para aumentar a venda dos seus livros, pois você pode fazer isso em outras cidades nas quais você passe.

Um detalhe muito importante aqui é para que você aprenda a lidar com a internet. Não é difícil e você só tem a ganhar, tanto para se divulgar como para aprender.

BRASIL: PAÍS HOMENAGEADO NA FEIRA INTERNACIONAL DE FRANKFURT. PARA QUE SERVE?

País tema de feiras internacionais? Para que serve?

PublishNews – 09/08/2011 – Por Felipe Lindoso

Sabendo do meu envolvimento com a presença internacional da literatura brasileira, amigos meus já perguntaram para que serve essa história de ser “país convidado” ou “tema central” de feiras internacionais. Com a próxima reapresentação do Brasil como tema em Frankfurt, em 2013, vale a pena pensar um pouco a respeito.
Como já escrevi no meu blog, o inventor desses “temas centrais” em feiras do livro foi Peter Weidhaas que, durante 25 anos, foi o diretor da Feira do Livro de Frankfurt, como resposta a uma demanda de que aquele evento não se restringisse a ser um amplificador do negócio de best-sellers e abordasse também temas relevantes no âmbito da discussão intelectual.
Temas como “Ano das Mulheres”, “Literatura latino-americana”, “África” e outros foram se desenvolvendo em Frankfurt e, a partir de um certo momento, cada feira passou a ter um país como “Tema Focal” a cada ano. O Brasil ocupou esse lugar em 1994 e o ocupará novamente em 2013.
Além de Frankfurt, o Brasil já foi “tema central” das feiras de Livros de Bogotá, Paris e Guadalajara.
Ser o país convidado para um evento desses implica em investimento por parte do homenageado. É necessário ter um estande especial, geralmente muito maior que o normalmente ocupado pelas editoras; organizar a presença de um número significativo de escritores, e também organizar eventos culturais relevantes, seja na área da própria feira, na cidade e no país onde se é homenageado.
O que justifica aceitar essa homenagem, para ir além do ufanismo?
Dois fatores, na minha opinião, podem justificar isso. Os dois não são excludentes, e sim complementares. O primeiro é a ampliação da presença dos autores brasileiros no exterior, com a venda de direitos autorais. O segundo é inserir essas homenagens dentro do contexto da diplomacia cultural, o que remete o evento à consideração da importância do país que homenageia para os objetivos da política exterior do Brasil.
A cultura – e o livro em particular – é um instrumento valiosíssimo de política cultural. A produção intelectual do país, a projeção dos seus autores e os demais eventos culturais abrem portas para outras dimensões da política externa: investimentos, comércio internacional, interesses geopolíticos e econômicos do país homenageado. Para citar um exemplo não brasileiro e bem extremo disso: a presença do Chile como país homenageado em Guadalajara se deu fortemente em torno dos vinhos e das frutas, itens fortes da pauta de exportação daquele país e de consumo direto pela população (o cobre, outro ponto forte das exportações chilenas, é matéria-prima e sua importância é conhecida apenas pelas indústrias; o grande público não tem nada a ver com isso). Assim, a junção de livros com vinhos e frutas criou um ambiente favorável para uma presença maior dos produtos chilenos na mesa dos mexicanos. Como o Chile já tem dois ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura, brindes a Pablo Neruda e Gabriela Mistral foram muito bem vindos na ocasião.
Dessa maneira, se bem organizada e estruturada, a presença como “país homenageado” rende efeitos culturais imediatos, mostrando os mais variados aspectos da nossa cultura no país da feira, e cria um ambiente propício para o desenvolvimento de outras ações de política externa, tanto na área cultural como das relações políticas e econômicas.
No âmbito da política cultural, entretanto, existe uma condição para que essa ação possa ter um efeito duradouro. É que o país tenha uma política cultural consistente, tanto para ações internas quanto internacionais. Caso contrário, os efeitos dessas ações se desfazem muito rapidamente, sem que haja um “retorno” continuado que aproveite sistematicamente o esforço concentrado que foi feito.
Infelizmente, foi o que aconteceu nos exemplos mencionados das homenagens ao Brasil.
Foi feito um extraordinário esforço de difundir a melhor imagem possível do Brasil. Sem exageros – e falo particularmente de Frankfurt 1994 – foi mostrada aos alemães a imagem da diversidade cultural do país, com a presença de muitas dezenas de autores, antes e durante a feira, e importantes exposições de artes plásticas que, em vários casos, circularam por outras cidades da Alemanha e mesmo na França. (Sobre a próxima apresentação do Brasil como país tema em Frankfurt, aliás, farei uma série de posts a partir da próxima semana, procurando tirar as lições do que foi feito para contribuir na definição do que pode ser feito em 2013).
O esforço rendeu traduções de livros, tanto de autores já traduzidos como de novos representantes da literatura brasileira, centenas de centímetros/colunas de notícias nos principais jornais europeus, não apenas nos alemães, e a criação de um extraordinário ambiente de admiração e boa vontade para com o Brasil.
Mas esse esforço não teve continuidade.
O programa de apoio às traduções, como já disse em outro momento, viveu anos em “soluço”: um ano tinha, outro não, outro talvez. O Itamaraty reduziu drasticamente o número e as ações dos CEBs – os Centros de Estudos Brasileiros – que eram o principal instrumento da ação cultural brasileira no exterior. E o Ministério da Cultura fez pouquíssimas ações no período 1996/2002. Depois de 1994, o MinC não retomou o programa de cátedras de ensino de literatura que existia anteriormente, e só este ano deu impulso decisivo ao programa de apoio às traduções. O Itamaraty, por sua vez, continua sem dar o devido impulso aos CEBs que sobreviveram, depois de ter fechado vários deles.
É claro que sempre sobram resquícios positivos desses grandes eventos, aos que se somam, hoje, os efeitos da maior projeção do país no âmbito internacional. Mas é necessário, definitivamente, ultrapassar a síndrome do grande evento e ter políticas públicas permanentes para a projeção da cultura brasileira no exterior. Vide a importância que tem o Instituto Goethe, a Alliance Française, o Instituto Cervantes, o Instituto Camões e o Instituto Italiano de Cultura na política exterior dos respectivos países.
Em resumo, ser “país tema” de grandes eventos é algo excelente – se tivermos políticas públicas consistentes e com continuidade para dar seguimento às ações e a coisa não se reduzir à festa, sempre boa, mas efêmera.
Um evento não é política pública, mas aproveitar de um grande evento para desenvolvê-las é saber aproveitar as oportunidades, o que vale para feiras de livro, copas de futebol e olimpíadas.

 

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial.